Rindo pra não chorar

Posts Tagged ‘ensaio sobre a cegueira

Esses dias assisti ao filme “Efeito Borboleta”, estrelado por Ashton Kutcher e Amy Smart. A história é sobre um menino que tem lapsos de memória em alguns momentos de sua vida, e anos depois, ao ler seus diários de criança, descobre que tem a capacidade de não apenas recuperar essas memórias perdidas, mas como alterar o que ocorre nelas para garantir um futuro diferente. Através desse “poder” ele passa a procurar mil maneiras para poder salvar sua amada sem prejudicar nenhuma outra pessoa.

O filme é relativamente antigo, porém está longe de ser uma mera história de romance (até porque os dois não terminam juntos após a ultima intervenção inteligentíssima do protagonista), mas é uma história que nos faz refletir. Muitas vezes reclamamos de nosso destino e o rumo que nossas vidas levam, porém, a verdade é que nós podemos sim tomar as rédeas de nossa vida, e não esperar que ela aconteça na nossa frente.

E é isso que Evan, o protagonista, faz ao longo de todo o filme. Volta nos seus momentos de lapsos e através de pequenas atitudes diferentes das que ele teve na época, consegue mudar todo o destino dos envolvidos. Além disso, o enredo também mostra como pequenas atitudes, pequenos gestos e palavras podem mudar completamente o dia de amanhã. Talvez essa seja a mensagem mais clichê que o filme passa.

Efeito Borboleta não é um filme apenas para passatempo, mas sim para reflexão. O trecho abaixo, do livro “Ensaio sobre a Cegueira” cairia muito bem na história: “Se antes de cada ato nosso nós pudéssemos prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegariamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento não tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já aqui não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala”

Ensaio sobre a CegueiraAs pessoas tendem a achar que toda adaptação é ruim porque o diretor sempre pula alguma parte, inverte a ordem dos fatos, isso quando não exerce o papel do autor. Porém, o que muitas vezes esquecemos é que não é tarefa fácil passar 300, 400, 500 ou até mais páginas para as telas. Falo isso porque essa semana assisti Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles, que adaptou o livro do ganhador do Nobel da Literatura, José Saramago.

O filme, claro, pula algumas partes, inverte algumas coisas mas não deixa de passar o essencial para o telespectador, até mesmo os que não leram o livro conseguirão entender a mensagem, algo que na minha opinião não acontece em Crepúsculo por exemplo, mas é quase uma covardia comparar um best-seller adolescente com um ganhador do Nobel.

A história é sobre uma estranha epidemia de cegueira branca que acomete uma população quase que inteira – exceto por uma mulher, que acaba virando a ‘guia’ de um pequeno grupo de cegos – os cegos acabam por se deparar com situações nas quais jamais imaginaram que poderiam ser submetidos, como se verem obrigados a matar ou oferecer o corpo de suas mulheres em troca de comida. É como uma verdadeira selva de sobrevivência. E assim como no livro, as personagens no filme não tem nome, tática que talvez seja para que nós também nos sintamos “cegos” na leitura, uma vez que além da ausência de nomes das personagens, o livro não separa seus diálogos e tem uma pontuação um tanto quanto peculiar.

Por fim, tanto livro quanto filme são bem intensos, não recomendado para aqueles que gostam de uma comédia romântica. É necessário estômago para ler e para ver. Além disso, é preciso também uma “mente aberta” para entender a real mensagem que a história passa. A história está longe de ser sobre cegos, até porque alguns recuperam a visão no final do livro. A história acaba por tratar da humanidade, de como ela lida com o desconhecido, de como no final das contas, somos todos iguais. No meio daquela cegueira, pouco importará se você é um médico, um professor, um ladrão ou uma prostituta.

Vale a pena ler o livro e ver o filme. Especialmente pelo filme ser de um dos diretores brasileiros mais competentes na atualidade. Além de Ensaio Sobre a Cegueira, Fernando Meirelles também dirigiu o aclamadissimo Cidade de Deus, talvez um dos maiores sucessos do cinema brasileiro.